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29/10/2007
Valdemar Caracas, orgulho do futebol cearense


Poucos homens são devidamente homenageados ainda em vida. Valdemar Caracas viveu tanto que conseguiu a proeza. Ao longo de quase 100 anos, ele recebeu diversas comendas. O birô de madeira da sala de casa está cheio delas. É até difícil numerá-las. Algumas estão na estante, outras em quadros. Verdadeira lenda do futebol cearense, o ex-dirigente, ex-técnico, ex-jogador e ex-cronista esportivo atinge um século de vida no dia 9 de novembro. Data para reverenciar aquele que acompanhou em Fortaleza o engatinhar do jogo trazido da Inglaterra e, hoje, ainda lúcido, mostra-se em condições de analisar a situação da modalidade no Ceará.

Apesar da idade, Valdemar Caracas impressiona por sua saúde em dia, embora esteja com a visão e audição debilitadas. Esperto, o fundador do Ferroviário e primeiro cronista esportivo da cidade não cai em perguntas capciosas. Na menor menção à atual diretoria do clube para o qual torce, ele interrompe com firmeza: “Essas perguntas aí você faz ao presidente do Ferroviário, uma pessoa que estimo muito”. Noutro momento, Caracas se irrita por não ter tido tempo para completar a resposta. Sinal de que é preciso cautela com o que se pergunta.

Conversa vai, conversa vem, as lembranças do dirigente são um passeio pela fase romântica do futebol cearense, na primeira metade do século passado, quando jogadores recebiam emprego no lugar de salários. Como técnico do Ferroviário, Valdemar Caracas conta que dava cachaça para Almeida, atleta que só se tranqüilizava antes dos jogos se tomasse pelo menos uma dose. Excelente frasista, ele manda brasa nos técnicos retranqueiros da atualidade, dirigentes sem planejamento, torcedores sem educação e radialistas sem isenção.

Viver é uma dádiva, mas tardar a morrer pode ser uma tristeza. Caracas demonstra ter saudade dos vários amigos que já se foram e da esposa Anete, sua companhia durante sete décadas, que morreu no ano passado. “Acho até que eu já devia ter morrido, para não dar trabalho aos outros”, admite. Caracas não deveria dizer isso. Para os saudosistas, suas histórias são como uma viagem no tempo. E, para a torcida do Ferroviário, ele será sempre uma espécie de segundo pai.

Jornal O POVO - Qual era o seu papel no grupo de pessoas que fundou o Ferroviário?
Valdemar Caracas - O Ferroviário foi fundado pelos operários da Rede de Viação Cearense (RVC), que tinha suas oficinas no Floresta (bairro vizinho à Barra do Ceará). Eu tinha 25 anos e era escriturário, quando veio uma ordem do Rio de Janeiro em 1933 para fazer um serviço extraordinário de reparação de carros e locomotivas para transportar a nossa safra para o Interior. Estabeleceu-se o serviço das 18 às 20 horas. O expediente normal terminava precisamente às 16h25min. Quem morava perto jantava em casa, mas havia os que moravam longe. Então os operários tiveram a idéia de fazer uma pelada todo dia, das 16h30min às 18 horas. Quando eles foram limpar o terreno ao lado da oficina, o mato era constituído de jurubeba e matapasto, que viraram os nomes dos dois times. Depois, os operários aproveitaram os domingos e começaram a jogar pelo subúrbio. Foi aí que nasceu a idéia de fundar o Ferroviário. Eu ajudei na documentação, mas no início não me envolvi. Só fiquei à frente do time a partir de 1938, quando me disseram que eu era líder da classe e que os operários estavam tomando o apito do juiz, arrumando confusão. Chamei todo mundo e disse que queria o Ferroviário com bom procedimento. A partir daquele dia tomei de conta de vez do time e dei vida ao Ferroviário.

OP - Foi o senhor quem mudou o nome de Ferroviário “Football Club” para “Atlético Clube”?
Valdemar Caracas - Eu fiz isso porque tinha um time no Maranhão com as iniciais FAC: Fabril Atlético Clube. São essas besteiras da gente, sabe? Eu torço um time em cada estado. Eu sou Internacional no Rio Grande do Sul, sou Fluminense no Rio de Janeiro, sou São Paulo. Por falar nisso, muita gente nota a semelhança no uniforme do São Paulo com o do Ferroviário. Fui eu quem mudei o uniforme do Ferroviário para ficar igual ao deles. Na verdade, eu torcia pelo Paulistano, um clube que acabou na década de 1930, por isso passei a torcer São Paulo, que veio depois. Eu mandei trazer para Fortaleza dois ternos (uniformes) do São Paulo, com 22 camisas. Quem me ajudou nisso foi o Vicente Sales Linhares, um amigo meu que já morreu.

OP - O senhor tinha 25 anos quando surgiu o Ferroviário, mas já devia torcer por outros times. Para qual time o senhor torcia antes?
Valdemar Caracas - Eu digo. Eu comecei a jogar futebol com bola de meia na praça Marquês do Herval, a atual José de Alencar, no Centro. Quando comecei a gostar de futebol, só existiam quatro times em Fortaleza: Ceará, Stela, que era o time que depois se tornou o Fortaleza, Guarani e Bangu. Quem tinha mais torcida era o Ceará, time que sempre foi de massa. Já a torcida do Fortaleza cabia num automóvel, ela só cresceu muito tempo depois. O Guarani tinha uma boa torcida, a do Bangu era um pouco menor. Eram esses os times que disputavam o campeonato da Liga Metropolitana de Football, que antecedeu a federação cearense.

OP - Mas o senhor ainda não me disse para qual time torcia antes do Ferroviário...
Valdemar Caracas - Peraí, você não me deixou responder ainda. Eu adorava fundar time. O primeiro que eu fundei foi o Humaytá, time dos empregados das Lojas Samaritanas, em companhia do Paulo Sarasate, que comandou o jornal O POVO, e Vinícius Ribeiro, os dois acadêmicos de Direito. Eu ainda não era empregado da RVC, trabalhava na loja. Eu e mais quatro empregados fundamos o Humaytá, que depois chegou à 1ª Divisão (do Campeonato Cearense). Depois, eu fui morar no Alagadiço (atual bairro São Gerardo) e fiz parte do bloco fundador do Maguary. Quando passei a trabalhar na estrada de ferro e surgiu o Ferroviário, virei Ferrim.

OP - O curioso então é que o senhor, como técnico do Ferroviário na final do Campeonato Cearense de 1945, acabou sendo responsável pelo fim do Maguary, o time para o qual torcia antes.
Valdemar Caracas - (gargalhadas) Eu era o treinador e impedi que o Maguary conquistasse o tricampeonato estadual. A derrota foi tão feia que o Maguary decidiu ficar só com a dança, deixou de lado o futebol. O Ferroviário não era um clube social, só tinha o futebol.

OP - O senhor sentiu remorso por ajudar a acabar com o time para o qual torcia?
Valdemar Caracas - Só tenho que prestar contas com Deus, não tem isso de remorso. Além do mais, a diretoria do Maguary tinha me botado para fora. Houve uma sessão e eu acusei um diretor de acompanhar a opinião de outro, disse que era “carneirada”. Carneirada, na época, era aquela pessoa que segue as outras, que não tem raciocínio próprio. Teve um diretor que disse: “Carneiro tem chifre, chifre é de corno, então você está me xingando”. Aí me botaram para fora. Fui para o Conselho Superior do clube, com direito a assembléia geral e tudo, e ganhei o direito de voltar. Mas não tinha mais ambiente, então renunciei. Até hoje tenho uma carteirinha do Maguary, mas não sei onde ela está. O Maguary foi fundado no dia 24 de junho de 1924. Era o clube dos ricos de Fortaleza, da elite da cidade. A sede social era um rio de mulher bonita.

OP - O Ferroviário foi o primeiro clube semiprofissional do futebol cearense, os jogadores passaram a ter um vínculo contratual na época em que o senhor assumiu a diretoria. O que o senhor acha desses novos tempos em que os jogadores recebem fortunas, como o Finazzi, que ganhava R$ 60 mil no Fortaleza em 2006?
Valdemar Caracas - Os jogadores ganham muito dinheiro porque alguém dá, as diretorias dos clubes acham que são ricas. O futebol cearense de hoje acha que é milionário. Na minha época eu não dava dinheiro, dava emprego. O sujeito tinha que trabalhar e jogar pelo time.

OP - E alguém reclamava?
Valdemar Caracas - Reclamava? Tá louco, rapaz? Emprego era tudo. José Dias, goleiro, e Pipi, ponta-esquerda, não sabiam coisa nenhuma, mas ganharam emprego na Rede de Viação Cearense e depois ficaram com uma ótima aposentadoria. Tem uma porção de gente que ainda hoje está aposentada. Eles iam para lá para trabalhar, mas todo domingo era meu: tinha que jogar futebol. A RVC era muito boa, depois vieram a Reffsa (Rede Ferroviária Federal S.A.) e o Metrofor (Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos), essas porcarias.

OP - No passado, as torcidas adversárias assistiam aos jogos juntas, no Campo do Prado e depois no Presidente Vargas. Por que começaram essas brigas que a gente vê hoje nos clássicos no futebol cearense, principalmente entre torcedores de Ceará e Fortaleza?
Valdemar Caracas - Fui diretor de tesouraria da federação, na primeira metade do século passado, me metia no meio dos torcedores para ver como as torcidas estavam se comportando. Quem mandava no estádio era eu, fiscalizava tudo. Hoje, ninguém é responsável pelo que acontece no estádio. Falta educação aos torcedores, meu filho. Temos que ensinar o que é certo aos jovens. No meu tempo, por exemplo, não havia droga. Eu tomava cerveja, cachaça, isso não era proibido. Você só não podia se exaltar. Veja só: eu tinha um jogador, o Almeida, meia-esquerda, que só jogava se tomasse antes da partida uma dose de caninha. Eu dava, mas ele nunca cometeu uma indisciplina, nunca disse qualquer ofensa, era uma beleza de jogador.

OP - Além de dirigente, o senhor foi também o primeiro cronista esportivo do Ceará. Como foi criar a linguagem que até hoje é utilizada pelo rádio esportivo, vocês procuraram conhecer como era o trabalho em outros estados?
Valdemar Caracas - As transmissões de jogos de futebol no rádio começaram no fim da década de 1930, quando a federação se desentendeu com a imprensa. O futebol ficou sem a palavra escrita. O capitão Juremir Pires de Castro, um gaúcho que era o presidente da federação, apoiava o jornal A Nota, onde eu trabalhava. Então ele levou a proposta à Ceará Rádio Clube, na época chamada de PRE-9, para que fosse formada a primeira equipe esportiva do rádio cearense. O José Cabral de Araújo narrava os jogos e eu era o repórter e fazia também os comentários. No dia seguinte, eu dava as notícias dos resultados de todos os jogos do Brasil e do mundo. Para isso, eu tinha um rádio-escuta: o Carlos de Sá Moreira, que ouvia tudo que acontecia pelo País e me repassava os resultados. No fim da década de 1930, só tinha eu como cronista esportivo em Fortaleza. Eu era o melhor e o pior.

OP - Nessa época o senhor era dirigente do Ferroviário e cronista esportivo. Como é que o senhor separava uma coisa da outra?
Valdemar Caracas - Eu não misturava alhos com bugalhos. Quando eu era comentarista, esquecia o Ferroviário. Eu morava no Mondubim e vinha de cavalo para o Prado e depois o Presidente Vargas. Eu amarrava os cavalos na Escola Industrial, que depois virou a Escola Técnica (atual Centro Federal de Educação Tecnológica), e nem chegava perto do Ferroviário. Tem comentarista por aí que só falta engolir o microfone. Grita, torce... Não precisa disso. Tem muito radialista que mais torce do que dá opinião. Na minha época, todo mundo sabia que eu era Ferroviário, mas ninguém me questionava. Mas é porque eu não exagerava.

OP - O senhor tem uma relação especial com o rádio não é, pois em todas as suas fotos tiradas em casa que encontrei no O POVO há um aparelho ao seu lado?
Valdemar Caracas - O rádio é meu companheiro, estou sempre ouvindo rádio. Daqui a pouco vou me deitar e o rádio me acompanha. O rádio dorme comigo, fica ligado direto. Ele me faz dormir e acordar. Ouço todas as rádios, gosto muito da Rádio O POVO. Ouço muito o Alan Neto, adoro as brincadeiras dele. Também gosto do Nonato Albuquerque, ele é um dos melhores radialistas do Ceará. Também gosto do Narcélio Limaverde. O pai dele, o José Limaverde, foi meu colega na Ceará Rádio Clube.

OP - Existe um ditado que diz que quem não sabe jogar futebol vira jornalista esportivo ou dirigente. O senhor então não devia jogar muito bem, já que virou os dois...
Valdemar Caracas - Eu jogava futebol, era o que se chama hoje lateral-direito. Na época o nome era half-direito, que fazia parte da linha média. Eu fui jogador do segundo quadro do Ferroviário, mas não era muito bom. Inclusive, discordo de muita coisa no futebol atual. Futebol não pode ser planejado, futebol é improviso. Valdemar Pimenta, um dos maiores treinadores do Brasil, uma vez me disse, lá por 1938: “dize-mes a linha-média que possues que eu te direi o time que tens”. A formação naquele tempo era o 2-3-5. Hoje, você põe só dois jogadores na frente, isso não existe. Como é que pode fazer gol? E só quem pode fazer gol é o Romário, o atacante. O outro não pode. Isso é uma estupidez, é coisa desses malucos aí, esses treinadores. Em 1936, havia um ponta-esquerda do Fluminense chamado Hércules que fez 23 gols num campeonato. Em 1937, fez 23 gols de novo. Hoje, se um ponta-esquerda fizer um gol é muito. Quem tem que fazer gol é o centroavante, é o Romário. Por isso que ele fez 1.000 gols.

OP - O senhor foi vereador de Fortaleza na década de 1930, exatamente na época em que surgiu o Ferroviário. Sua base de votos foi a torcida do time?
Valdemar Caracas - Fui eleito em 1936 e, em 1937, (o presidente) Getúlio Vargas deu o golpe que tomou meus direitos políticos. Não posso bater palmas ao Getúlio, ele fez justiça com as próprias mãos. Mas a grande maioria dos meus votos foi de operários, não foi de torcedores. Eu era líder da classe ferroviária. Mesmo assim, não foram muitos votos, foram cerca de cento e poucos. Naquele tempo havia poucos eleitores em Fortaleza. Perdi meu mandato no dia 10 de novembro de 1937, um dia depois do meu aniversário. O Getúlio comeu dois anos de minha vida.

OP - O senhor exerceu vários cargos no Ferroviário, mas nunca foi presidente. Por quê?
Valdemar Caracas - Porque nunca quis. O Ferroviário nunca poderia crescer tendo na presidência um operário ou um simples funcionário da RVC. Tinha que ser alguém com nome. Quando o Ferroviário nasceu, chamei um agrônomo, o doutor José Maciel, para virar o primeiro presidente do clube. Mas, principalmente a partir do momento em que tomei à frente do clube, quem mandava de verdade era eu. Eu fiscalizava tudo, acompanhava até mesmo o comportamento dos torcedores na platéia.

OP - O Ferroviário esse ano não conseguiu vaga na Série C do Campeonato Brasileiro e passou todo esse semestre parado...
Valdemar Caracas - (interrompendo) Essas perguntas aí você faz ao presidente do Ferroviário, uma pessoa que eu estimo muito.

OP - Calma aí, Caracas, o que eu quero saber é se o senhor está com saudade de ver o Ferroviário jogar. O senhor está com saudades do time?
Valdemar Caracas - Se eu não estivesse numa idade tão avançada, estaria lá dentro, cuidando do Ferroviário. Espero que o Ferroviário volte logo à ativa. Ultimamente só vou aos jogos de dia, que começam às quatro horas da tarde, porque fica mais fácil voltar para casa (Caracas mora no Joaquim Távora). Fico na tribuna de honra do Presidente Vargas, onde o ex-chefe da Regional IV e hoje vice-governador, o professor Francisco Pinheiro, prometeu construir um memorial em minha homenagem. Mas não gosto do Castelão. Já saí do Castelão uma vez a pé até a minha casa no Mondubim. Até hoje nunca mais voltei lá. No Castelão é tudo desorganizado. Não tem locomoção para os torcedores, a polícia não garante a segurança do público. Por falar nisso, é um absurdo a polícia dizer que não tem como garantir o policiamento nos grandes jogos. Tem que garantir, quem não pode garantir sou eu e você. Enfim, não gosto do Castelão.

OP - Existe muita polêmica entre os torcedores do Ferroviário se utilizam o apelido Ferrim ou Ferrão. O senhor prefere qual?
Valdemar Caracas - Acho isso uma besteira, é tudo igual. O José Limeira foi quem começou com isso, ao dizer que chamar o Ferroviário de Ferrim era menosprezar o time. Você torce pelo time e isso é o que importa. Não me importa se chamam de Ferrim.

OP - Qual é o sentimento de se chegar aos 100 anos?
Valdemar Caracas - Acontece. Não gosto não, acho até que eu já devia ter morrido, para não dar trabalho aos outros. Além disso, morreram todos os camaradas meus: o doutor Telmo Bessa; o Gilvan Dias; o José Raymundo Costa, que morreu cedo demais, meu amigo de imprensa e do Partido Socialista; Blanchard Girão, um dos maiores amigos do trem, um homem que sempre ajudou o Ferroviário; e o José Rosa, grande fotógrafo. Sem contar a Anete, companheira de tantos anos. Sinto saudade de todos. Não faço nada de especial, minha alimentação não tem nada de diferente. Tô com essa idade porque acho que tenho sorte.

SERVIÇO
A Associação dos Amigos do Ferroviário Atlético Clube (AAFAC), entidade de torcedores do clube, promete inaugurar uma estátua de bronze do dirigente Valdemar Caracas, no estádio Elzir Cabral, na Barra do Ceará. A solenidade não está com data confirmada e a previsão é que a cerimônia seja realizada no dia 9 de novembro, com a presença de dirigentes e torcedores.

Por Rafael Luís, do Jornal O POVO

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